WISH YOU WERE HERE- A história por trás da canção de Pink Floyd




Oi gente, tudo bem? Alguns dias atrás eu publiquei no You Tube a minha canção favorita de todos os tempos, mas não teci um artigo especial sobre ela! Que lástima!! 😡 (Nota 0 para mim! 😜  Para sanar essa falha imperdoável, hoje vou me dedicar totalmente a Wish You Were Here  e toda à sua beleza inserida em sua complexidade musical e filosófica... Quer me acompanhar? Então vamos lá! Garanto que não vai se arrepender! Serei breve, na medida do possível...

Quase literalmente “Queria que você estivesse aqui” é o nono álbum lançado por um dos maiores grupos musicais que nosso mundo já viu – o Pink Floyd. O álbum foi lançado em 1975  e faz parte do período de maturidade da banda, notadamente a década de 70, quando lançaram suas maiores obras de arte. E Wish You Were Here, música homônima do álbum, é a mais linda do Pink Floyd, na minha humilde opinião... Mas não se trata de uma canção romântica como muitos pensam. Ela tem um fundo muito mais complexo do que possa imaginar...



 Wish You Were Here é uma obra artística em sua essência – combina diversas expressões de arte – e, além disso, é uma obra filosófica ( que parte de um tema central, a “ausência”, para se explodir e pensar a sociedade, de forma ontológica; o que realmente somos, SE realmente somos, a questão da representação, o capitalismo, nosso modo de produção e de vida...é, enfim, em si mesma, como obra, uma filosofia do Ser.
 Pink Floyd em 1972, na época do álbum na época de The Dark Side of the Moon, da esquerda para a direita: Nick Mason, David Gilmour, Roger Waters e Rick Wright 

Roger Waters - baixo, composição e efeitos de áudio
Richard Wright - vocais harmônicos, steinway piano e Minimoog
David Gilmour - vocais, guitarra e violão
Nick Mason - bateria e efeitos de áudio

Antes de ir para o conteúdo filosófico da obra especificamente, é impossível mesmo iniciar a análise dessa obra artística sem falar sobre Syd Barrett. Syd foi um dos fundadores e o primeiro guitarrista do Pink Floyd. Criado o grupo, em 1965, Syd foi o criador das ideias musicais e pela autonomia estilística do Floyd. Guitarrista inovador e genial compositor, Syd criou os princípios do chamado rock psicodélico pelo qual ficaria conhecida a banda, além de ser também o responsável pelo nome da banda e pelos vocais do primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn. Não é exagero dizer, creio eu, que Syd era (ou é? Ou sempre foi?) a essência da banda. O princípio, a origem do que é e foi o Pink Floyd estão em Syd, e a história de Wish You Were Here deixa isso claro. Devido ao abuso das drogas, principalmente LSD, Syd deixa a banda já em 1968. Roger Waters disse:

O Pink Floyd não poderia ter começado sem ele, mas não poderia continuar com ele.

Syd esteve ativo enquanto músico por apenas sete anos, gravando, com o Pink Floyd, quatro singles, dois álbuns e diversas músicas não lançadas; como artista solo, lançou um single e três álbuns, até entrar em reclusão autoimposta, que durou mais de trinta anos.
Em sua vida pós-música, ele continuou pintando e se dedicou à jardinagem. Nunca mais voltou a público. Barrett morreu em 2006, por complicações advindas de diabetes.




Mas o que parece ser o fim acabou sendo só o começo.

Idealizado e gravado dois  anos após o lançamento da então obra prima The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here nasce em um ambiente que confrontava a falta de concentração, a desmotivação e o desânimo da banda com as pressões da gravadora por algo novo, por outra obra. 
Os membros da banda e principalmente Waters deixam claro, em um documentário sobre o disco, que esse sentimento de desânimo da banda acabou por ajudar a criar o tema central que originaria a obra: AUSÊNCIA. Ausência de ânimo, ausência de motivação, ausência de vontade de trabalhar e criar nos moldes dessa indústria com a qual estavam desiludidos...e também – a mais importante – a ausência de Syd Barrett.

Nesse ponto, Roger Waters amplia e torna analógica toda a sua acidez crítica e a estrutura de seu pensamento filosófico: a sua crítica recorrente à indústria fonográfica e os seus pensamentos sobre a sociedade e a cultura do dinheiro abrangem novos e ainda mais amplos temas e horizontes. A crítica às gravadoras e à indústria crescem para se tornar a crítica ao capitalismo e à mentalidade do lucro a qualquer custo - a crítica ao modo de produção de arte que os filósofos da Escola de Frankfurt chamaram de indústria cultural – ou seja, a forma com que o capitalismo se apropria da arte para satisfazer seus próprios interesses econômicos. Forte não é?

A ausência de Syd também amplia o pensamento de Waters para uma filosofia da ausência do Ser na sociedade onde impera a mentalidade do dinheiro; Onde, mesmo no campo artístico, já não se consegue ser o que realmente se é, onde se é obrigado a, primordialmente, interpretar-se, representar-se, agradar, ser aceito. A arte, que deveria ser a fuga, torna-se parte do caminho pelo qual o sistema nos guia. Eram como se fossem robôs teleguiados...

Diz Waters, no documentário: 

Você não é mais um indivíduo, você é uma cifra. Você apenas interpreta, não é mais dono de si.

O disco seria então, diz ele, “uma expressão universal de meus sentimentos sobre ausência”. Uma ausência que seria até mesmo uma auto ausência, pois pensar dessa forma em tudo isso, como também ele diz, “te faz querer se afastar da sociedade”. Como fez Syd.

Assim, a canção Wish You Were Here, apesar de seu toque e aparência romântica  trata de duas pessoas, mas que estão em uma situação até oposta: eles estão juntos, mas ainda há uma ausência. Estão juntos, mas são “duas almas perdidas, nadando em um aquário, ano após ano”. Ou seja, presos.
Um deles parece estar deixando se levar pela adequação, pelo espetáculo; ou pela fuga a tudo isso. E a outra parece estar tentando evitar, tentando buscar a consciência, tentando chamar-lhe para a luta, mas no final dizendo que queria que ele estivesse ali, ou seja, ele se perdeu, ele se foi. 
Quem a composição “deseja que estivesse aqui” é o nosso já famoso Ser, o ente em sua essência, a pessoa como ela realmente é e não a o que o mundo quer que ela seja. Diz o “salvador”: “Você trocou seus heróis por fantasmas”. Você acha que consegue distinguir o sorriso da máscara? Os campos verdes do trilho de aço?

A arte gráfica da obra, idealizada pelos sempre geniais Storm Thorgenson (idealizador também da magnífica arte de The Dark Side) e pelo cartunista Gerard Scarfe, colabora de forma primordial com a filosofia do Ser de Waters. A capa do álbum é simplesmente estarrecedora:

Nick Mason diz, no documentário, que o homem se queimando poderia representar Syd, pois “Syd se sentia queimado a todo momento pela indústria fonográfica”. A expressão “queimado”, ou “burned”, é comum na língua inglesa como uma gíria no campo dos negócios: quando se cede, conforma-se com algo ou aceita-se algo que não agrada-te, por pressão ou por obrigação, está se queimando.

A capa então representa não só Syd, mas a banda toda sendo queimada, “burned”, pelo acordo – o aperto de mão – com o empresário, o capitalista, o representante da indústria. A foto foi tirada tendo como fundo alguns prédios pertencentes aos estúdios da Warner Bros. Warner Bros, onde se gravam filmes e séries; Hollywood, lá onde só se representa, onde ninguém é o que realmente é. Diz Storm: “O que poderia ser mais ausente?”
Em sintonia com a “ampliação da filosofia” de Waters, os próprios Storm e Gerard comentam que a arte do álbum é mesmo “um convite a uma atitude acerca de todo o status quo e a todos os tipos de poderes”. A arte gráfica traz também outras figuras dessa filosofia que pensa e afirma que, nessa forma de sociedade, não há mais Ser, ele se perde, desaparece. Há, no encarte, a figura de um “homem invisível”, oferecendo ao público um disco; só se vê as suas roupas, chapéu e formas, ele não tem rosto, membros e nem expressão. Ora, não é essa a realidade que vivemos? Somos conhecidos, julgados e “curtidos” pelo que realmente somos? Ou somente pelo que fazemos, oferecemos, temos ou vestimos? Continua atualíssimo!!
Mas é incrível como em toda essa simbologia crítica, e especialmente na capa com o homem se queimando, os membros da banda sempre acabam por identificar Syd ali, sendo queimado, sendo engolido, frustrando-se, apagando-se.
Syd é o Ser. Sim, para Mason, Wright, Gilmour e Waters, Syd é a personalização do Ser, é o exemplo do que é se expressar como realmente se é. O seu talento, sua liberdade, seu espírito, sua arte e sua LUZ! Isso é Ser, e isso era Syd. E agora Syd havia se apagado. A sociedade, as pressões e demandas da indústria e a vida pelo dinheiro apagaram a luz de Syd.  Syd não conseguiu lidar com a sociedade do não-ser, pois ele era o Ser em essência. Era um confronto que ele não podia vencer, deixando-se levar, assim, às trevas.
Waters, inspirado, discursa “Você pode realmente libertar-se o suficiente para conseguir experimentar a realidade da vida, enquanto ela flui, enquanto fazemos parte dela? Ou não? Porque, se não, fique enquadrado até morrer.” Fica claro então que Waters nos convida para uma atitude diferente da de Syd.  Syd era o Ser, mas não pôde aguentar a adequação. Syd não se entregou, mas também não lutou. Buscou a fuga, mas a fuga é impossível. As imagens do disco falam por si:
Waters nos convoca para a luta pelo Ser frente ao não-ser. Diz ele, ainda inspirado, agora pela canção homônima do título da obra: 

Quero ter a coragem para não aceitar o papel de liderança em uma jaula. Quero exigir de mim mesmo continuar nesta caminhada, nesta guerra. EU QUERO ESTAR NAS TRINCHEIRAS. NEM NOS QUARTEIS-GENERAIS E NEM SENTADO OBSERVANDO. NAS TRINCHEIRAS!

➽ Esse é o convite e o pressuposto prático do seu pensamento. Há que se lutar pelo brilho do Ser, pois não há fuga possível.

Finalmente concluímos que a História de Wish You Were Here relata uma das fases mais conturbadas e importantes da carreira do Pink Floyd, e mostra como a imensa capacidade criativa da banda foi capaz de superar um momento complicado e fazer surgir um de seus melhores discos. Sem romantismo e expondo suas diferenças, o quarteto revê o seu passado e analisa como ele definiu o seu futuro. Sem meias palavras, sem máscaras e de maneira franca, é possível perceber como, muito mais do que um disco, Wish You Were Here se tornou uma declaração de amor a um amigo perdido e um manifesto da forma como o Pink Floyd acreditava que deveria ser a indústria musical.

E fiquem agora com o vídeo que criei, que confesso: ficou uma obra- prima... rsrs
Tomara que goste!! Linda semana gente querida!!




Gifs Tumblr e imagens do Google Imagens

Seu comentário é muito bem-vindo! Obrigada!

4 comentários:

  1. E não é assim? O que foi, continua sendo... a essência sempre se perdendo, sufocada pela aparência. E os que lutam ou ainda resistem, são os "loucos".
    Eu lendo sua postagem e pensando nisso qdo atingi a parte que vc fala sobre curtidas... ou seja, tudo igual!!!
    Eu AMO Pink Floyd e tenho os vinis, assim como Elvis, U2, Black Sabbath e tantos outros. Acho que o rock antigo tem arte de verdade que só é captada pelo vinil. Sempre penso que "antigamente" os caras tinham que ser artistas - cantores de verdade, compositores, músicos, filósofos... - e hoje em dia, a indústria faz todo o trabalho: nem precisa ser muita coisa, se a cara vender, tá bom... :(
    Desde moleca curto o som psicodélico do Pink e sempre viajava e viajo na melodia, nas letras e até nos vídeos.
    E falando em vídeo, parabéns. Captou bem a essência e achei interessante o "giro", que completou 360 graus. Me deu a msg "giramos e voltamos para o mesmo lugar, sempre!!!" (Não sei se foi isso que vc quis passar, mas foi isso que vi, além das belas imagens combinadas com a letra e o "psicodelismo").
    Parabéns pelo post!!! Amei e sinto falta do Syd como de tantos outros que partiram "moldados" por uma indústria que prega "que tem que ser o que se é" (SQN). Tão ambíguo... tão sem personalidade... rsrs. Me lembrou o filme "Como perder um homem em 10 dias", que a dona da revista diz para a protagonista que ela podia escrever sobre o que quisesse, desde que fosse moda, regime, beleza rsrs...

    Obrigada pelo carinho com a família e com os Anjos. Realmente gostei muito daquelas peças e se pudesse, faria Natal o ano todo rsrs.

    Abraços esmagadores e dias felizes, deixando a essência sobressair, sempre!!!

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    1. Poções de Arte, que comentário lindo, verdadeiro, forte e certeiro!!
      Neste mundo, desde então, não podemos ser o que realmente somos!
      Temos que ser moldados para ser aceitos, temos que ser adaptados para gerar uma fonte de renda...
      Nada muda né amiga?
      Ainda bem que existem lendas como o Pink Floyd para nos fazer refletir e ainda resgatar o nosso interior!! A nossa essência!!!

      Que incrível que ainda tenha alguns discos de vinil querida!! E olha você tem raridades, pelo visto!!
      Elvis, U2, Black Sabbath fizeram verdadeiros hinos! São maravilhosos!!
      Puxa, o U2 está em São Paulo outro dia fazendo shows e não pude ir, para variar...rsrs
      E você tocou no cerne da questão: Atualmente basta vender bem que já basta.. por isso tem tanta coisa de gosto duvidoso por aí fazendo sucesso, o que é lamentável não é?

      Ahh menina, fico impressionada como você captou exatamente o que eu querida passar com o vídeo! Esse demorei muito para editar, pois pensava em uma maneira de encontrar um material que fosse meio partindo de algo para chegar ao mesmo lugar da partida em giros subsequentes...rsrs Pareço louca né? rsrs Mas foi isso mesmo amiga!! E também deixar aquele clima psicodélico, de pensamentos, de lembranças, de sentimentos envolvidos, mas sem romantismo!!
      E puxa, preciso ver o filme que mencionou...rsrs Parece maravilhoso!!

      E eu que sou muito grata a ti querida!!
      Você é sempre maravilhosa!! Não tenho palavras para agradecer!!
      Fico feliz demais que tenha gostado do vídeo e ainda melhor: captado exatamente a essência que eu queria passar!! Puxa, genial!!! Amei!!!
      Um beijo e uma semana maravilhosa!!

      Aproveite bem o feriado ao lado de sua família querida!!
      E que todos fiquem bem rapidinhos, pois o anjinhos os protegem sempre!!
      Beijinhos!!! :))))

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  2. olá Adriana:
    que maravilhosa canção do Pink Floyd.
    quando penso neles a canção que me vem na cabeça é the wall.
    nossa, que época foi aquela não?!
    uma ebulição de arte e talento. lembro das capas dos discos que a gente curtia junto com o que tinha dentro.
    era arte, com certeza, podia não gostar , mas era arte.
    que pobreza nossos tempos de hoje, que pobreza.
    tudo descartável, inclusive pessoas.
    seu vídeos estão cada vez mais incríveis, muito lindo sua montagem , criatividade e escolha musical !!
    agradeço muito pelos seus carinhosos comentários em meu blog, me enchem de alegria !
    grande abraço !!
    :o)

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    1. KR Eliane, boa noite querida!
      Ah, esse feriado no meio da semana chegou para dar um alívio na vida né? rsrs
      Tem momentos que precisamos disso para não enlouquecer...

      Adorooo The Wall, uma canção emblemática!!! E vou preparar um vídeo dela!! Mas o conteúdo é bastante complexo e preciso me preparar bastante..rsrs
      Ah, as capas dos discos sempre viam com surpresas incríveis!! Era maravilhoso!!
      Agora tudo ficou muito sem sentido, industrial, descartável....
      Talento de verdade está uma raridade!!
      As gravadoras só querem vender e mais nada... Mesmo que sejam trabalhos de gostos muito duvidosos!! Lamentável não é?
      Temos que nos libertar, isso sim!! Jamais nos deixar que sejamos moldados!!

      Ah, fico feliz demais que esteja gostando dos vídeos amiga!
      Só os edito quando sinto a essência do trabalho do artista...Virou um hobbie, um descanso!
      Muito, muito obrigada querida!!

      Desejo uma semana maravilhosa e eu que agradeço sua gentileza e carinho!!
      Muitos beijinhos!! :))

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